Março

'Rio, 40 Graus' expõe o morro sem retoques

Nélson Pereira dos Santos dirige filme de baixo custo que inova o cinema brasileiro

Finalmente, depois de vencer várias dificuldades, é lançado “Rio, 40 Graus”, primeiro longa-metragem do cineasta Nélson Pereira dos Santos e uma das obras mais importantes do cinema nacional. O filme tem trilha sonora de Radamés Gnattalli e Zé Ketti, fotografia de Hélio Silva e a participação de Jece Valadão como ator e diretor-assistente.

Numa época em que as grandes companhias cinematográficas perseguiam o modelo hollywoodiano, o filme inaugura uma nova linguagem, que influenciaria inúmeros cineastas e inspiraria, anos depois, movimentos como o Cinema Novo. Seria saudado pela crítica brasileira e receberia vários prêmios.

Sem interesse dos grandes produtores para o projeto, Nélson organizou uma cooperativa e vendeu cotas para realizá-lo — o que lhe valeu uma repreensão do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual era filiado.

Os negativos vieram contrabandeados para o Brasil, e a câmera foi emprestada por Humberto Mauro, diretor do Instituto Nacional do Cinema Educativo (Ince).

Concluído em 1955 com baixíssimo orçamento, “Rio, 40 Graus” seria saudado pela crítica brasileira e receberia vários prêmios. Em setembro daquele ano, porém, teve a exibição proibida, em todo o território nacional, pelo chefe do Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP), coronel Geraldo de Meneses Cortes.

Várias foram as justificativas para a censura: a primeira era que se tratava de um filme realizado por “elementos comunistas, financiados por Moscou”. Depois — segundo afirmou o coronel, em entrevista coletiva — o filme só apresentava os aspectos negativos do Rio de Janeiro, o que também servia aos interesses políticos dos comunistas. Por fim, o filme mentia sobre a temperatura da cidade: segundo ele, a temperatura no Rio de Janeiro nunca chegara aos 40 graus.

A liberação só veio no governo de Juscelino Kubitschek, graças a uma campanha de artistas e intelectuais de todo o país.

O enredo conta as desventuras de quatro meninos negros do Rio de Janeiro num domingo de muito calor. Moradores do Morro de Cabuçu, eles vendem amendoim nos pontos turísticos da cidade — Maracanã, Quinta da Boa Vista, Pão de Açúcar, Copacabana e Corcovado.

Sem retoques, o cineasta projetou nas telas a vida nos morros cariocas, bem como o lugar ocupado pelos favelados na sociedade da época. Nélson denunciou a realidade de um Brasil pobre e violento, marcado por profundas desigualdades sociais — um discurso ausente dos filmes brasileiros até então.