28 de fevereiro

Sarney lança seu cruzado contra a inflação

Governo cria uma nova moeda e decreta congelamento de preços, salários e câmbio

O governo surpreende o país ao anunciar uma série de medidas de choque que vinham sendo preparadas secretamente pela equipe econômica chefiada pelo ministro da Fazenda, Dilson Funaro. Entre elas, a troca da velha moeda “contaminada pela inflação”, o cruzeiro, pelo cruzado, que dá nome ao plano. O Plano Cruzado foi a tentativa do governo Sarney de enfrentar a escalada da taxa de inflação que chegara a 350% em um ano. Somente em janeiro, o aumento bateu em 20,9%. 

A nova moeda nasce com três zeros a menos –  1 cruzado (Cz$ 1,00) equivalia a 1 mil cruzeiros (Cr$ 1.000,00). Os preços, os salários e a taxa de câmbio são congelados por tempo indeterminado. Extingue-se também o mecanismo da correção monetária, introduzido no regime militar.

Em pronunciamento à nação transmitido pelo rádio e pela televisão, o presidente da República conclamou “brasileiros e brasileiras” a vigiarem os preços e a denunciarem os estabelecimentos que burlassem o congelamento. Estava em curso “uma guerra de vida ou morte contra a inflação”, disse ele a uma população castigada pelo flagelo que corroía o poder de compra, especialmente dos mais pobres. Os consumidores atenderam ao apelo e se engajaram na fiscalização dos preços, denunciando irregularidades. Surgiram os chamados “fiscais do Sarney”. Um deles chegou a fechar um supermercado em Curitiba em nome do presidente.

A inflação cedeu, o poder de compra dos assalariados aumentou e Sarney experimentou momentos de grande popularidade. Alguns meses depois, entretanto, alguns produtos começaram a faltar nos supermercados, inclusive a carne  – insatisfeitos com o congelamento de preços, os pecuaristas se recusavam a matar os bois. Sobreveio uma crise de abastecimento que frustrou a população. Funaro anunciou, então, uma operação para confiscar bois no pasto com a ajuda da Polícia Federal. A medida, entretanto, não resolveu o problema.

O desabastecimento começou em junho, mas somente em novembro – seis dias depois das eleições estaduais, que deram estrondosa vitória ao PMDB – o  governo lançaria o Plano Cruzado 2. Os preços foram liberados e as mercadorias reapareceriam, mas a inflação também voltaria a atacar a economia. Percebendo que o governo adiara o enfrentamento do problema para evitar desgastes eleitorais, a população ficou revoltada. Surgiu daí a expressão “estelionato eleitoral”.