5 de maio

Soa o apito da panela de pressão

10 mil estudantes saem às ruas de SP; passeatas acontecem em todo o país

Milhares de estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) tomam o centro da cidade, enfrentando a polícia, na primeira grande manifestação de massa contra a ditadura, pela anistia e pelas liberdades democráticas depois do Ato Institucional n° 5 (AI-5). Populares aplaudiam a passeata e jogavam papéis picados das janelas dos prédios. O estopim para o ato foi a prisão de oito militantes da Liga Operária, quando distribuíam panfletos no município de Santo André às vésperas do 1º de Maio, Dia do Trabalhador. O secretário da Segurança Pública do Estado, coronel PM Erasmo Dias, comandou pessoalmente a repressão policial, o que se repetiria ao longo do ano. 

A Liga Operária era uma pequena organização política que atuava nas fábricas (a Liga daria origem à Convergência Socialista e, depois, ao PSTU). Em 29 de abril foram presos Celso Brambilla, José Maria de Almeida, Márcia Basseto Paes, Cláudio Júlio Gravina e os estudantes Ademir Mariri, Fernando Antônio de Oliveira Lopes, Fortuna Dwek e Ana Maria Fabri. Todos foram torturados e indiciados na Lei de Segurança Nacional.

A manifestação começou no largo São Francisco, sob as arcadas da Faculdade de Direito da USP, com cerca de 10 mil estudantes, de acordo com os jornais da época. Antes de sair em passeata, os manifestantes leram em coro uma carta aberta à população, que começava pela denúncia da tortura e dos crimes da repressão: “Hoje consente quem cala: basta às prisões, basta de violência. Não mais aceitamos mortes como as de Vladimir Herzog e Alexandre Vannucchi Leme. Não aceitamos que as autoridades maltratem e mutilem nossos companheiros. Não queremos aleijados heróis como Manuel da Conceição. (...) Hoje, neste país, são considerados subversivos todos aqueles que reivindicam seus direitos; todos aqueles que não aceitam a exploração econômica, o arrocho salarial, o alto custo de vida (...). Fim às torturas, prisões e perseguições; libertação imediata dos companheiros presos; anistia ampla e irrestrita a todos os presos, banidos e exilados; pelas liberdades democráticas.”

Trinta mil exemplares da carta foram distribuídos à população enquanto a passeata seguia pelo centro da cidade. No viaduto do Chá, um carro da polícia avançou em velocidade contra os estudantes, que assim mesmo prosseguiram na caminhada até esbarrar numa barreira policial. As cenas foram registradas no filme “O Apito da Panela de Pressão”, produzido por alunos da USP, que seria exibido ao longo do ano em várias universidades de todo o país, apesar de proibido pela ditadura.

Passeatas e atos públicos estudantis se multiplicaram pelo país. Em 10 de maio, 7 mil estudantes fizeram passeata no Rio. O ministro da Justiça, Armando Falcão, enviou carta aos governadores exigindo repressão ao Dia Nacional de Luta, marcado para 19 de maio – as manifestações eram intoleráveis, dizia Falcão. Na data prevista, 8 mil estudantes foram às ruas em São Paulo, 8 mil no Rio, 5 mil em Belo Horizonte, e também em Salvador, Recife, Porto Alegre e Brasília, sempre enfrentando a repressão. A Universidade de Brasília (UnB) foi mais uma vez ocupada pela polícia, que permaneceu no campus até o final do ano a pedido do reitor, capitão-de-mar-e-guerra José Carlos Azevedo.