15 de março

Tancredo é operado e Sarney toma posse

Situação inesperada deixa o país apreensivo com os rumos da transição

Na noite de 14 de março, Tancredo Neves é operado no Hospital de Base de Brasília. Após uma missa de ação de graças, as dores no abdômen que o presidente eleito vinha sentindo há meses se acentuaram e Tancredo teve de se submeter a uma cirurgia de emergência. A cúpula da Aliança Democrática imediatamente começou a negociar com o comando do regime militar os procedimentos para a posse no dia seguinte. Havia o temor de que o episódio servisse de pretexto para um retrocesso, com a retomada do controle político pelos militares.

Uma comitiva integrada por Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Marco Maciel e outros políticos reuniu-se com o chefe da Casa Civil de Figueiredo, ministro Leitão de Abreu, e o ministro do Exército escolhido por Tancredo, general Leônidas Pires Gonçalves. O ministro do Exército de Figueiredo, Walter Pires, telefonou a Leitão defendendo a prorrogação do mandato do general presidente até que Tancredo se restabelecesse.

No grupo, alguns defenderam a posse de Sarney; outros, a do segundo na linha sucessória, o presidente da Câmara, Ulysses Guimarães. Mas Ulysses descartou a alternativa de seu nome. Receava um veto militar, já que nos anos anteriores havia comandado a oposição em batalhas frontais contra o regime. Uma entrevista do jurista Afonso Arinos, defendendo a posse do pedessista, e a opinião convergente do general Leônidas, foram determinantes. Figueiredo, entretanto, se recusou a passar a faixa presidencial para Sarney. Deixou o Palácio do Planalto pela garagem.

O vice jurou a Constituição no Congresso e tomou posse depois de uma noite em que os dirigentes da chamada Nova República não dormiram. Leu o discurso deixado por Tancredo e empossou os ministros já escolhidos por ele. Assim, de modo inesperado, foi concluída a transição política.

A Nova República chegava ao poder com Sarney na Presidência e Ulysses Guimarães no estratégico posto de presidente da Câmara e do PMDB.