21 de abril

Tancredo morre após longa agonia

Funerais do presidente eleito reúnem multidões comovidas

Após um martírio de 39 dias, sete cirurgias e vários procedimentos médicos radicais para tentar salvar sua vida, o presidente eleito Tancredo Neves morre no dia 21 de abril de 1985 no Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Em 15 de janeiro, ele fora eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral, numa transição pactuada, depois da rejeição da emenda Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições presidenciais diretas. Na véspera da posse, marcada para 15 de março, Tancredo passou mal, foi internado no Hospital de Base de Brasília e submetido a uma primeira cirurgia para a retirada de um divertículo de Merckel infeccionado, segundo versão oficial.

No dia seguinte, após delicadas negociações com o regime militar que se findava, o vice eleito em sua chapa, José Sarney, tomou posse interinamente. Tancredo enfrentava complicações pós-operatórias, com um quadro de infecção hospitalar resistente, e foi transferido para o Incor no dia 26 de março.

Começou então uma agonia que foi alvo de intensa cobertura pelos meios de comunicação, constituindo-se talvez na primeira cobertura em tempo real na era pré-internet. Centenas de pessoas iam todos os dias à porta do hospital prestar solidariedade, e os mais diferentes grupos religiosos realizavam novenas, procissões, orações coletivas, pedindo por seu restabelecimento. Em todo o país ocorriam manifestações e vigílias pela recuperação do presidente.

A equipe médica de Brasília foi criticada por suposta negligência. Mais tarde, seria a vez dos médicos do Incor serem questionados pelas contradições nas informações sobre o estado de saúde de Tancredo e a falta de transparência no trato de uma questão de interesse público.

Surgiam especulações sobre a natureza da doença. Para alguns, seria um câncer. Outros especulavam que Tancredo teria sido vítima de um atentado. A iminência de sua morte gerou nos meios políticos muita apreensão sobre os rumos da transição. Afinal, o presidente Figueiredo se recusara a transmitir o cargo a Sarney.

Em 21 de abril, às 22h30, a morte de Tancredo foi anunciada ao país. No dia seguinte seu corpo foi levado em avião da Força Aérea Brasileira para Brasília. Milhares de pessoas passaram por seu velório durante a noite no Palácio do Planalto. No dia 23, pela manhã, o corpo seguiu para Belo Horizonte, onde multidões homenagearam Tancredo no Palácio da Liberdade, que ele ocupou como governador de Minas. À tarde, foi sepultado em sua cidade natal, São João del Rei. Cerca de 2 milhões de pessoas participaram dos funerais nas três cidades.

No dia 22, Sarney, até então presidente interino, foi definitivamente empossado na Presidência da República para concluir a transição.