30 de maio

TV Globo dá espaço para o presidente

Em ano eleitoral, Roberto Marinho cria programa semanal para Figueiredo

Estreia na Rede Globo de Televisão o programa semanal “O Povo e o Presidente”. Gravado no Palácio do Planalto, tinha o formato de entrevista, na qual o apresentador Ney Gonçalves Dias fazia perguntas de “cidadãos comuns” ao general presidente João Baptista Figueiredo. “O Povo e o Presidente” ia ao ar logo após o “Fantástico”, a maior audiência da televisão brasileira na época, e fazia parte da desesperada estratégia da ditadura para tentar vencer as eleições daquele ano. O programa “jornalístico” constituía uma propaganda tão explícita da ditadura que sua exibição seria proibida pelos Tribunais Regionais Eleitorais de São Paulo e do Ceará às vésperas das eleições de 15 de novembro.

De acordo com o site da Rede Globo, a criação de “O Povo e o Presidente” foi sugerida pelo dono da emissora, Roberto Marinho, numa carta ao general presidente. A emissora, que nasceu e cresceu apoiando a ditadura, já era então a mais influente televisão do país. Seu principal noticiário, o “Jornal Nacional”, fazia cobertura favorável ao governo e crítica às greves e manifestações populares. O programa de Figueiredo seria exibido até outubro de 1983 e saiu do ar quando o desgaste político e social da ditadura chegou ao clímax. A Globo continuaria apoiando o último governo do regime e faria censura em seu noticiário às manifestações da campanha pelas Diretas-Já, que começaram em dezembro de 1983. Foi a única emissora a tomar essa atitude, que só iria mudar no último comício, em abril de 1984.

Figueiredo foi o primeiro chefe de Estado no Brasil a submeter sua imagem pública ao marketing político. Ao assumir, em 1978, criou a Secretaria de Comunicação Social, para a qual foi nomeado o publicitário e ex-empresário de imprensa (revista "Visão") Said Farhat. Ele fez o general presidente abandonar os óculos escuros, que usava por causa de uma persistente conjuntivite, e abreviou seu nome oficial para João Figueiredo.

No mesmo período em que foi lançado “O Povo e o Presidente”, a rede SBT, outorgada por Figueiredo ao empresário Silvio Santos, passou a exibir o quadro “A Semana do Presidente”. O formato era de reportagem, cobrindo as atividades do presidente, e era exibido aos domingos, durante o programa de auditório do proprietário da emissora. “A Semana do Presidente” foi mantida no governo José Sarney e no primeiro ano do governo Fernando Collor (1990).