Carregando...

A imprensa de resistência

Historicamente, a imprensa serviu como trincheira das lutas políticas no Brasil, e não foi diferente no período da ditadura militar. De 1964 até os anos 1980, a crítica ao regime foi exercida por meio da imprensa alternativa, que recebia esse nome por divulgar notícias, análises e denúncias que normalmente não eram publicadas na imprensa empresarial.

A imprensa de resistência

Historicamente, a imprensa serviu como trincheira das lutas políticas no Brasil, e não foi diferente no período da ditadura militar. De 1964 até os anos 1980, a crítica ao regime foi exercida por meio da imprensa alternativa, que recebia esse nome por divulgar notícias, análises e denúncias que normalmente não eram publicadas na imprensa empresarial.

A imprensa alternativa produziu títulos marcantes do jornalismo brasileiro, como “O Pif-Paf”, “O Pasquim”, “Opinião”, “Movimento”, “Versus”, “Ex-”, entre muitos outros exemplos de jornalismo corajoso e criativo. Introduzindo inovações que seriam incorporadas à linguagem e à produção editorial do país, os jornais alternativos foram além do papel político, contribuindo para o debate mais amplo sobre comportamento e para o enfrentamento de preconceitos e da discriminação na sociedade brasileira (“Nós Mulheres”, “Lampião da Esquina”, “Beijo”, entre outros).

A imprensa de resistência à ditadura retomou uma tradição de jornalismo político que remonta à época da Independência (no período colonial, a imprensa era proibida no Brasil). No século 19, as facções expressavam-se por meio de pequenos jornais, vulgarmente chamados de pasquins. A crítica, muitas vezes em linguagem virulenta, era reforçada pelo uso de caricaturas e ilustrações, recursos gráficos que iriam se desenvolver fortemente no Brasil.

A imprensa serviu às campanhas do Abolicionismo e da República, reforçando sua presença na vida política. Na década de 1920, núcleos anarquistas deram início à imprensa operária e popular, publicando centenas de títulos, sempre perseguidos pela polícia. Nas décadas de 1930 e 1940, as primeiras empresas jornalísticas conviveram com jornais partidários e satíricos, dos quais o mais importante foi “A Manha”, criado, dirigido e redigido pelo talentoso jornalista Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”. O golpe de 1964 perseguiu jornalistas e jornais que se opunham ao novo regime. A principal vítima foi “Última Hora”, criado em 1952 para apoiar Getúlio Vargas e que representou uma revolução editorial na imprensa popular. Seu editor, Samuel Wainer, exilou-se na França. O jornal foi economicamente estrangulado, até ser vendido, em 1972, ao Grupo Folha de S.Paulo, que apoiava a ditadura editorialmente e colaborou com a repressão e a tortura. O liberal “Correio da Manhã”, que passou a criticar o regime já no ano de 1964, também foi censurado e estrangulado até ser fechado em 1969. Desapareceu o “Binômio”, que era publicado em Belo Horizonte desde 1952 e foi empastelado no dia seguinte ao golpe militar. O semanário “Novos Rumos”, ligado ao Partido Comunista Brasileiro, que contava com notáveis colaboradores intelectuais e chegou a tirar 60 mil exemplares por edição, foi extinto em 19 de abril de 1964. Deixaram de circular o jornal “Imprensa Popular” (PCB), o jornal “Política Operária” (do grupo marxista do mesmo nome) e outras publicações ligadas a organizações políticas. O ataque à liberdade de imprensa foi também um ataque à diversidade de pensamento e opinião. Contrariando a tendência histórica de multiplicação de títulos, os anos do regime militar corresponderam à concentração da imprensa empresarial nas mãos de poucas famílias: Marinho (“O Globo”), Mesquita (“O Estado de S. Paulo”), Frias (“Folha de S.Paulo”), Nascimento Brito (do extinto “Jornal do Brasil”), todas articuladoras do golpe de 1964, além da Editora Abril, da família Civita. A televisão, quase monopolizada pela Rede Globo, tomou a liderança do mercado de comunicação. A primeira publicação independente a desafiar o novo regime foi a revista “O Pif-Paf”, lançada em junho de 1964 pelo jornalista, desenhista, escritor e dramaturgo Millôr Fernandes.

A revista mensal reunia os melhores chargistas e cartunistas do país (Fortuna, Ziraldo, Claudius, entre outros, além do próprio Millôr) e criticava com humor o governo dos militares e seus aliados civis. A oitava edição “d’O Pif-Paf”, apreendida pela polícia nas bancas, foi a última, mas deixou o exemplo de que era possível fazer uma imprensa alternativa às publicações tradicionais. Entre 1964 e 1980, foram publicados cerca de 150 títulos de circulação nacional ou regional, quase todos de vida efêmera (de 1 a 2 anos), de acordo com levantamento do jornalista e professor da USP Bernardo Kucinski. As formas de produção eram as mais variadas – propriedade individual (“Opinião”), coletivos de jornalistas (“O Pasquim”, “Ex-”, “De Fato”), associações de cotistas (“Movimento”, “Em Tempo”), financiamento de organizações políticas (“O Trabalho”, “Hora do Povo”), cooperativas (“Coojornal”) e jornais de sindicatos e centros acadêmicos. Houve até o caso de uma organização guerrilheira (MNR) que infiltrou jornalistas militantes no “Jornal dos Sports” para editar os suplementos “O Sol” e “Poder Jovem”, de vida breve, em 1967. Clandestinamente, circulavam jornais e boletins de organizações de esquerda (“Voz Operária”, do PCB, “A Classe Operária”, do PCdoB, “O Piquete”, da Colina). Grupos de exilados brasileiros publicaram boletins na França (“Frente Brasileira de Informações”), Chile e outros países, denunciando os crimes da ditadura. No auge de sua influência, em 1975 e 1976, a tiragem conjunta da imprensa alternativa variou de 120 mil a 180 mil exemplares, segundo Kucinski, o que correspondia à tiragem de um grande jornal diário. Os nanicos disputavam com a grande imprensa o espaço nas bancas de jornal.

A partir de 1980, no entanto, uma série de atentados impunes contra bancas (bombas e incêndios) intimidou a maioria dos jornaleiros, que deixaram de vender e expor os alternativos. Sob as mais duras condições (censura prévia, boicote de anunciantes, atentados contra redações e bancas, apreensão de edições, processos judiciais e prisão de jornalistas), a imprensa alternativa cumpriu importante papel de resistência, denúncia e debate político e social ao longo da repressão. Em meados dos anos 1980, a maior parte dos militantes da imprensa alternativa incorporou-se aos partidos políticos ou encontrou espaço na imprensa empresarial, encerrando um belo capítulo do jornalismo brasileiro.”

Leia mais

Os alternativos

A experiência pioneira de “O Pif-Paf” foi baseada no talento de seu criador, Millôr Fernandes, e dos colaboradores que reuniu: Fortuna, Claudius, Ziraldo, Jaguar, mestres do desenho e do humor. A revista mensal fazia provocações à ditadura, em textos, charges e até fotonovelas, muito populares na época. “O Pif-Paf” testou os limites do…

Os alternativos

A experiência pioneira de “O Pif-Paf” foi baseada no talento de seu criador, Millôr Fernandes, e dos colaboradores que reuniu: Fortuna, Claudius, Ziraldo, Jaguar, mestres do desenho e do humor. A revista mensal fazia provocações à ditadura, em textos, charges e até fotonovelas, muito populares na época. “O Pif-Paf” testou os limites do regime até a publicação do antológico editorial “Advertência”, no qual Millôr escreveu que, se as autoridades continuassem permitindo publicações como aquela, o país corria o risco de “cair numa democracia”. A edição foi apreendida e a revista chegou ao fim.

Em 1965, jornais políticos e econômicos como “Reunião”, do editor Ênio Silveira (Civilização Brasileira) e “Folha da Semana”, de Arthur José Poerner, ambos do Rio, tiveram vida breve. Em 1967, o Grêmio da Faculdade de Filosofia da USP lançou “Amanhã”, com noticiário político e popular, dirigido por Raimundo Rodrigues Pereira. No mesmo ano, uma equipe liderada por Reinaldo Jardim, e ligada ao Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), editou o suplemento “O Sol”, encartado no tradicional “Jornal dos Sports” do Rio. Foi uma revolução gráfica e informativa que inspirou “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso (a primeira mulher do compositor, Dedé Veloso, trabalhava no jornal).

O jornal alternativo de maior impacto em todo o período foi lançado no Rio, em 1968: “O Pasquim”. Sob a liderança de Jaguar, Tarso de Castro e Millôr, reunia o grupo da extinta “O Pif-Paf”, cartunistas mais jovens como Henfil e Redi, os jornalistas Ivan Lessa, Paulo Francis, Sérgio Cabral, Luiz Carlos Maciel e colaboradores como Antônio Houaiss, Antônio Callado, Chico Anísio, Chico Buarque e muitos outros. Nascido para ser um jornal de Ipanema, “O Pasquim” virou uma febre nacional, com textos, desenhos e entrevistas de excelente qualidade, embalados numa irreverência marcadamente carioca.

“O Pasquim” influenciou o comportamento e até o modo de falar de toda uma geração. Gírias até hoje utilizadas, como “dica”, “sifu”, “falou”, “bicho”, “foram” lançadas pelo semanário. O jornal chegou a vender 250 mil exemplares por semana, mais do que qualquer diário brasileiro da época. Em 1º de novembro de 1970, agentes do DOI-Codi invadiram a redação e prenderam sete jornalistas: Ziraldo, Fortuna, Maciel, Francis, Jaguar, Cabral e Paulo Garcez. Por dois meses, enquanto eles estavam na prisão, o jornal foi feito por Millôr, Henfil, Lessa, Tarso e um mutirão de colaboradores.

“O Pasquim” criou uma editora de best-sellers (Codecri), um selo musical (que lançou a dupla João Bosco e Aldir Blanc) e teve farta publicidade nos primeiros anos, mas sofreu com uma administração anárquica, a censura prévia e, por fim, o boicote de anunciantes estimulado pela “grande imprensa”. Começou a declinar em 1972, passou por diversas mudanças e existiu, sem jamais recuperar o brilho inicial, até 1988.

Em 1972, o empresário Fernando Gasparian, amigo do ex-presidente João Goulart, convidou o jornalista Raimundo Pereira para lançar o semanário “Opinião”, que marcou época pelo jornalismo econômico, pelo requinte gráfico (com litografias de Grillo) e pelos artigos de acadêmicos (Chico de Oliveira, Francisco Weffort e Fernando Henrique Cardoso, entre outros). “Opinião” encartava a edição brasileira do “Le Monde” e publicava textos de jornais dos EUA e da Europa. Foi submetido a censura prévia e sofreu com divergências entre Gasparian e Pereira, até ser fechado, em 1975. “Movimento” foi lançado em 1975, com a proposta de ser “um jornal de jornalistas”, financiado por cotistas e gerido por um conselho de expoentes da sociedade civil. Na prática, era dirigido politicamente por um militante clandestino da AP, Duarte Brasil, que influenciava diretamente o editor Raimundo Pereira. O forte do semanário eram as reportagens sobre a realidade brasileira e os efeitos sociais da crise econômica daquele período. Teve grandes ilustradores, como Elifas Andreatto e Jaime Leão, mas era pobre graficamente. Inviabilizado economicamente, “Movimento” circulou até 1981.

Outras importantes experiências jornalísticas foram o jornal “Ex-” (de 1973, tirou 16 edições mensais, forte em reportagens de qualidade e graficamente ousado), “Mais Um” (sucessor do proibido “Ex-” e proibido na única edição) e a revista “Versus” (de 1976, criada por Marcos Faerman, voltada para a história da América Latina, com excelente grafismo). Em Belo Horizonte, um coletivo de jornalistas lançou “De Fato” (de 1976); em Porto Alegre, uma cooperativa de jornalistas lançou “Coorjornal” (de 1976); em Vitória circulou “Posição” (de 1976) e, em Belém, “Resistência” (de 1978), entre outros.

As novas organizações de esquerda, que se articularam a partir da metade da década de 1970, lançaram seus próprios jornais: “Em Tempo” (de 1977, Democracia Socialista), “O Trabalho” (de 1978, Organização Socialista Internacionalista), “Companheiro” (de 1979, Movimento de Emancipação do Proletariado), além da “Hora do Povo” (de 1979, MR-8) e da “Tribuna da Luta Operária” (de 1979, PCdoB). A revista “Versus” tornou-se porta-voz, em 1979, da Convergência Socialista.

A imprensa alternativa vocalizou a contracultura (“Flor do Mal”, de 1970, “Grilo”, de 1971); o movimento de mulheres (“Brasil Mulher”, de 1975, “Nós Mulheres”, de 1976, “Maria Quitéria”, de 1977); de homossexuais (“Lampião da Esquina”, de 1978); organizações de bairro (“Jornal dos Bairros”, de 1976, “Jornal da Vila”, de 1978) e o movimento sindical (“ABCD Jornal”, de 1976,” Batente”, de 1978), além de coletivos de humor, cultura, de ambientalistas e tantos outros atores sociais que não tinham voz ao longo da ditadura.”

Leia mais

Os clandestinos

Um segmento importante da imprensa de resistência foi mantido pelas organizações políticas clandestinas de combate à ditadura. Trabalhando em condições precárias e sob rígidas normas de segurança, os jornais das organizações políticas eram alvo constante da perseguição movida pelos órgãos de segurança…

Os clandestinos

Um segmento importante da imprensa de resistência foi mantido pelas organizações políticas clandestinas de combate à ditadura. Trabalhando em condições precárias e sob rígidas normas de segurança, os jornais das organizações políticas eram alvo constante da perseguição movida pelos órgãos de segurança. Os jornalistas, gráficos e militantes, responsáveis por sua edição, impressão e distribuição corriam permanentemente o risco de prisão. Alguns títulos que se destacaram no período: “Voz Operária” (Partido Comunista Brasileiro - PCB), “Classe Operária” (PCdoB), “O Piquete” (Comandos de Libertação Nacional – Colina) “Libertação” (Ação Popular – AP), “Venceremos” (Ação de Libertação Nacional – ALN), “Palmares” (Vanguarda Popular Revolucionária – VPR), “Resistência” (Movimento Revolucionário 8 de outubro – MR-8).”

Leia mais

Os exilados

Para os milhares de brasileiros que tiveram de deixar o país para escapar da repressão, era dura a ausência de notícias, agravada pela precariedade das comunicações numa era anterior à internet. Nasceu daí uma imprensa pouco conhecida, mas muito atuante…

Os exilados

Para os milhares de brasileiros que tiveram de deixar o país para escapar da repressão, era dura a ausência de notícias, agravada pela precariedade das comunicações numa era anterior à internet. Nasceu daí uma imprensa pouco conhecida, mas muito atuante: a imprensa do exílio. Jornais, revistas e folhetos ajudavam na troca de informações e funcionavam como canal de denúncias contra o regime militar. Auxiliavam também a articular redes de debates e análises políticas. “Bolletino Informativo della Resistenza Brasiliana”, “Brasil Socialista”, “Campanha”, “Frente Brasileira de Informações” – “FBI”, “Debate” e “Fragmento” são alguns exemplos da imprensa de resistência editada no exílio.

Leia mais