• Mulheres

    Entrando na cena pública

    A professora negra de Florianópolis escrevia à militante branca da alta sociedade do Rio de Janeiro para discutir os rumos da luta das mulheres no Brasil dos anos 1930, na qual já militavam a empregada doméstica, a médica, a revolucionária.

    A força desse gesto sintetiza a ousadia de mulheres que, vivendo sob o pesado fardo do patriarcado, se mobilizaram pela ampliação dos direitos femininos no país.

    O exemplo vinha de fora, como a campanha das inglesas pelo voto feminino e os movimentos e greves de operárias norte-americanas. Mas a realidade a enfrentar estava aqui dentro, num país rural que se urbanizava mas ainda impunha às mulheres a submissão dentro das famílias, a exclusão da participação política e a invisibilidade na história.

    Seus instrumentos de militância eram a literatura, o ensino, o sindicato, o panfleto, as marchas, os partidos e organizações político-sociais, ferramentas para disseminar na sociedade uma ideia corajosa: romper o isolamento e a tutela da mulher, para que ela se lançasse na cena pública num momento de ebulição da história do país, como foram os anos 1930.

  • A força feminina nos conturbados anos 1930

    De domésticas a damas da sociedade, de educadoras a deputadas, de médicas e cientistas a sindicalistas e militantes políticas. Não foram poucas as mulheres que atuaram na cena política e social do Brasil nos agitados anos 1930. Muitas fizeram de seu ofício na educação e na literatura uma ferramenta para melhorar a vida das mulheres e de todos. Outras militaram em partidos, e algumas até pegaram em armas, em busca de mudanças na sociedade conservadora e machista.

    Apesar da crescente mobilização feminina, a década que se iniciou com uma revolução nacional e terminou com uma guerra mundial foi mais de luta do que de conquistas para as mulheres brasileiras. A grande vitória institucional desses anos foi o reconhecimento do direito de as mulheres votarem e serem votadas, com a promulgação do Código Eleitoral de 1932, depois de intensa e longa campanha que vinha desde o século 19.

    As desigualdades salariais, o Código Civil baseado em regras patriarcais, a educação das meninas voltada para o lar e inúmeras limitações na vida feminina atravessaram os anos 1930, e muito da desigualdade de gênero permanece até hoje. Pode-se dizer, no entanto, que a própria disposição de luta, organização e mobilização das mulheres já é uma grande conquista desse período de agitação histórica. O surgimento de várias organizações representativas, a atuação feminina no enfrentamento do fascismo nas ruas, a eleição das primeiras deputadas e prefeitas, a difusão de ideias feministas na imprensa são um importante legado dessa década, base para muitas conquistas futuras.

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    Discurso

    Almerinda Farias Gama (1899-1992)

    Almerinda Farias Gama, representante classista na Constituinte de 1934 Crédito: CPDoc FGV/Coleção Almerinda F. Gama

    Almerinda Farias Gama (1899-1992)

    Almerinda Farias Gama, além de combatente sindicalista, foi uma das poucas mulheres negras que lutaram pelo direito ao voto feminino, sendo a única a votar como delegada na eleição para Assembleia Nacional Constituinte em 1933.

    Nascida em Maceió, Almerinda ficou órfã muito cedo e se mudou para Belém, onde foi criada por uma tia. Estudou, tornou-se datilógrafa profissional e começou publicando crônicas na imprensa paraense. Já morando no Rio de Janeiro, elegeu-se presidenta do Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos e depois se firmou como cronista.

    Almerinda ficou viúva e perdeu seu filho muito cedo. Além de seu trabalho com comunicação, Almerinda estudou direito, formando-se também advogada e tornando-se membro da Associação dos Escreventes da Justiça do Distrito Federal. Em 1934, candidatou-se a deputada federal, com o slogan “advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação; lutando pela independência econômica da mulher, pela garantia legal do trabalhador e pelo ensino obrigatório e gratuito de todos os brasileiros em todos os graus”. Perdeu a eleição, mas foi vitoriosa ao se tornar a primeira mulher a chamar atenção no cenário político brasileiro.

    Em 1935, com um novo companheiro, teve outro filho, mas teve de enfrentar a dor da morte de ambos. Almerinda acabou por abandonar a política partidária, mas seu ativismo foi um marco na emancipação da mulher negra no país. Sua vida e luta foram registradas em vídeo e entrevistas nos anos 1990.

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    Discurso

    Alzira Soriano (1897-1963)

    A prefeita e seu secretariado Crédito: reprodução extraída da coluna Coisas da História, de Luiza Villaméa (revista Brasileiros)

    Alzira Soriano (1897-1963)

    Viúva aos 22 anos, com duas filhas pequenas e uma terceira a caminho, em pleno sertão do Rio Grande do Norte, Alzira Soriano não parecia destinada a entrar para a história. Mas entrou, na condição de primeira prefeita do Brasil e da América Latina. Em 1928, quando as brasileiras sequer tinham o direito de ir às urnas, ela obteve 60% dos votos na disputa para a prefeitura de Lajes (RN). De tão extraordinário, o fato foi noticiado pelo New York Times.

    As brasileiras só conquistariam o direito a voto quatro anos mais tarde, pelo Código Eleitoral de 1932, mas uma nova legislação estadual garantia a todo cidadão o direito de votar e ser votado, “sem distincção de sexos”.

    A prefeita abriu estradas, fez escolas, cuidou da iluminação pública, mas sua gestão durou pouco: vitoriosa a revolução de 1930, os então prefeitos perderam seus mandatos, e os sucessores passaram a ser nomeados pelos interventores nos estados – e estes, por sua vez, por Getúlio Vargas.

    Alzira Soriano só voltaria à vida pública a partir da redemocratização, em 1945, elegendo-se vereadora na sua terra natal, Jardim de Angicos. Foi eleita por mais duas vezes consecutivas, chegando inclusive à Presidência da Câmara de Vereadores.

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    Discurso

    Ana Amélia Queirós Carneiro de Mendonça (1896-1971)

    Ana Amélia Carneiro de Mendonça Crédito: Agência O Globo

    Ana Amélia Queirós Carneiro de Mendonça (1896-1971)

    Ana Amélia Queirós Carneiro de Mendonça nasceu numa família da elite do Rio de Janeiro, passou a infância numa fazenda de Minas Gerais e logo entendeu que poderia ir além dos limites impostos às mulheres de seu tempo. Educada por professoras estrangeiras, iniciou-se na literatura ainda adolescente, publicando vários livros de poesia entre os anos 1920 e 1950.

    Além da literatura, Ana Amélia se dedicou de forma ativa e altiva ao reconhecimento da mulher brasileira. Editou a página feminina do “Diário de Notícias” durante dois anos e foi a primeira mulher membro do Tribunal Eleitoral (1934). Já vice-presidenta da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1935 foi designada por Getúlio Vargas para representar o Brasil no 1º Congresso Feminista Internacional, em Istambul (Turquia). Também foi delegada do Brasil de 1941 a 1943 na Comissão Interamericana de Mulheres.

    Ana foi eleita a Rainha dos Estudantes Brasileiros, após fundar em 1939, a Casa do Estudante do Brasil — que fica na praça Ana Amélia, centro do Rio de Janeiro, rebatizada em sua homenagem.

    Apaixonada pelo futebol brasileiro, Amélia casou-se com o goleiro do América do Rio, com o qual teve três filhos. É considerada hoje uma importante escritora da literatura brasileira do século 20.

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    Antonieta de Barros (1901-1952)

    Antonieta de Barros Crédito: reprodução

    Antonieta de Barros (1901-1952)

    A primeira mulher, e negra, eleita no Brasil — assim sempre será lembrada Antonieta de Barros. Filha de escrava liberta e órfã de pai, Antonieta teve uma infância muito pobre e difícil.

    Alfabetizada pelos estudantes que moravam em sua casa — uma pensão fundada por sua mãe para complementar a renda —, ela continuou estudando até se tornar jornalista, professora e política. Suas principais bandeiras eram: educação para todos, valorização da cultura negra e emancipação feminina. Eleita deputada estadual em 1934 pelo Partido Liberal Catarinense, ajudou a elaborar a Constituição do estado em 1935, tendo escrito os capítulos “Educação e Cultura” e “Funcionalismo”. Trabalhou na Assembleia Legislativa de Santa Catarina até 1937, quando teve início a ditadura do Estado Novo.

    Além da militância política, Antonieta foi fundadora e diretora do jornal “A Semana” entre 1922 e 1927, no qual, por meio de suas crônicas, expressava seus ideais, ligados especialmente a educação, política, emancipação feminina e combate ao racismo.

    Em 1945 voltou a concorrer a deputada estadual, sendo eleita suplente. Assumiu em 1947 e cumpriu o mandato até 1951. Após lecionar em várias escolas, Antonieta criou seu próprio colégio, do qual foi diretora até sua morte.

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    Armanda Álvaro Alberto <br/> (1892–1967)

    Armanda Alvaro Alberto Crédito: reprodução

    Armanda Álvaro Alberto
    (1892–1967)

    A educadora e militante feminista Armanda Álvaro Alberto nasceu numa família tradicional do Rio de Janeiro e dedicou parte de sua vida à política e à alfabetização de crianças pobres na Baixada Fluminense. Sempre envolvida com educação e feminismo, participou da criação, em 1924, da Associação Brasileira de Educação (ABE) e, em 1935, da União Feminina do Brasil (UFB), ligada à Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização de luta contra a influência fascista no Brasil.

    Ela e seu marido foram acusados de participar da preparação do fracassado levante comunista de 1935. Presa, dividiu a cela com Olga Benário e Nise da Silveira. Julgada e absolvida, voltou-se exclusivamente à educação, área em que foi, realmente, inovadora e revolucionária. Sua pedagogia não tinha notas, prêmios nem castigos, e os lemas da Escola Regional de Meriti, sua base de experimentação, eram “Saúde, Alegria, Trabalho e Solidariedade”. Outra inovação que Armanda levou a seus alunos foi o fornecimento da merenda escolar.

    Armanda foi uma mulher que trabalhou com muito entusiasmo pela construção de seu projeto de educação e de país.

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    Berta Lutz <br/> (1894-1976)

    Berta Lutz, ao lado de Pedro Ernesto, discursa no Morro de São Carlos em dezembro 1934 Crédito: Iconographia

    Berta Lutz
    (1894-1976)

    Berta transformou a conquista do voto feminino no Brasil em sua principal bandeira. Reconhecida como a maior líder na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras, ela estudou na Europa na época das grandes campanhas sufragistas femininas.

    Formada em Biologia na Sorbonne, França, Berta tornou-se docente do Museu Nacional, sem deixar de se dedicar ao feminismo. Fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) e líder da pressão feminina no Congresso Nacional desde os anos 1920, Berta persistiu na luta para que Getúlio Vargas incorporasse o voto feminino ao Novo Código Eleitoral — o que aconteceu, em 1932.

    Nas eleições de 1934, a primeira na qual as mulheres puderam votar e ser votadas, e quando em todo o Brasil nove mulheres foram eleitas deputadas estaduais e uma deputada federal, Berta conseguiu a suplência na Câmara Federal, assumindo o mandato em 1936. Durante todo o mandato, ela defendeu a mudança da legislação referente ao trabalho da mulher e das crianças, propôs igualdade salarial, licença de três meses para as grávidas e redução da jornada de trabalho. Foi membro de várias entidades internacionais de mulheres e representou o país em inúmeros eventos internacionais.

    Apesar da dedicação à luta pelos direitos femininos, Berta ainda pôde ainda contribuir fortemente com a pesquisa zoológica, descobrindo várias espécies anfíbias brasileiras.

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    Branca Fialho (1896-1965)

    Branca Fialho Crédito: Reprodução

    Branca Fialho (1896-1965)

    Branca Fialho foi educadora, comunista e lutou pelos direitos das mulheres no Brasil. Foi membro fundador da Associação Brasileira de Educação e teve seu trabalho reconhecido internacionalmente, sendo escolhida como uma das presidentes de honra do Congresso Internacional de Educação em Paris, em 1937.

    Atuou em campanhas de solidariedade durante a Segunda Guerra Mundial e, ativista nas lutas dos movimentos de mulheres durante as décadas 1940 e 1950, tornou-se em 1952 presidenta da Federação de Mulheres do Brasil.

    Embora não fosse comunista, foi eleita vice-presidente da Federação Democrática Internacional de Mulheres, que reunia mulheres socialistas e comunistas organizadas em todos os países socialistas. Nesse mesmo ano Branca Fialho aceitou o convite do Conselho Mundial da Paz para visitar a antiga União Soviética. Essa visita inspirou seu livro “Viagem à União Soviética”, de 1952.

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    Carlota Pereira de Queirós <br/> (1892-1982)

    Carlota Pereira de Queiroz, primeiro discurso na Câmara dos Deputados Crédito: Iconographia

    Carlota Pereira de Queirós
    (1892-1982)

    Carlota Pereira de Queirós foi a primeira deputada federal do Brasil e da América Latina, pioneira na criação dos serviços sociais no país.

    Médica paulista, envolveu-se na política depois de atuar na assistência aos feridos na Revolução Constitucionalista de 1932, movimento paulista contra o governo Getúlio Vargas. Devido a essa iniciativa, foi incluída entre os candidatos da chapa paulista que unificou o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Democrático (PD) nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte.

    Eleita, integrou a Comissão de Saúde e Educação e conseguiu se reeleger em 1934, já pelo Partido Constitucionalista de São Paulo. Na Câmara, opôs-se ao projeto de Berta Lutz para a criação de um Departamento Nacional da Mulher, alegando que a proposta representava discriminação sexual. Seu perfil conservador a levou a candidatar-se novamente, sem se eleger, em 1945, 1950 e 1954 pela União Democrática Nacional (UDN) e a apoiar o golpe militar de 1964.

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    Cecília Meirelles (1901-1964)

    Cecília Meirelles discursa no Instituto de Educação em setembro 1935 Crédito: Iconographia

    Cecília Meirelles (1901-1964)

    Cecília Meireles não se envolveu com política nem foi brava militante — foi poeta. Professora de crianças no Rio de Janeiro, Cecília iniciou-se na poesia muito jovem, com sonetos parnasianos, sendo atraída depois pela estética modernista que irrompeu no país nos anos 1920. Seus poemas são marcados pela ideia da transitoriedade, com extrema serenidade diante da perda, talvez por ter ficado órfã muito cedo.

    Cecília fundou a primeira biblioteca infantil do país e manteve, durante quatro anos, uma página sobre educação no “Diario de Notícias”. Ensinou literatura brasileira na Universidade do Distrito Federal, entre 1936 e 1938, e nos Estados Unidos, em 1940.

    Foi um dos maiores nomes da literatura brasileira no século 20. São dela os versos do livro “Romanceiro da Inconfidência”, um de seus mais importantes legados:

    Liberdade – essa palavra
    que o sonho humano alimenta:
    que não há ninguém que explique
    e ninguém que não entenda!
    ”.

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    Celina Guimarães Vianna (1890-1972)

    Celina Guimarães Vianna Crédito: reprudução

    Celina Guimarães Vianna (1890-1972)

    Há controvérsias, mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), corroborando diversas fontes, afirma em seu site:

    “Celina Guimarães Vianna: Foi a primeira eleitora do Brasil, alistando-se aos 29 anos de idade. Com advento da Lei nº 660, de 25 de outubro de 1927, o Rio Grande do Norte foi o primeiro estado que estabeleceu que não haveria distinção de sexo para o exercício do sufrágio. Assim, em 25 de novembro de 1927, na cidade de Mossoró, foi incluído o nome de Celina Guimarães Vianna na lista dos eleitores do Rio Grande do Norte. O fato repercutiu mundialmente, por se tratar não somente da primeira eleitora do Brasil, como da América Latina”.

    Nascida em Natal (RN), a professora Celina mudou-se para Mossoró com o marido, o também professor Elizeu Viana. Ensinou desenho na escola normal da cidade, que logo a reconheceu como uma mulher de sua personalidade forte e determinada. Um mês após a aprovação da Lei nº 660/1927, Celina requereu sua inclusão noseu alistamento eleitoral. Diz o despacho, que entraria para a história:

    “Tendo a requerente satisfeito as exigências da lei para ser eleitora, mando que inclua-se nas listas de eleitores. Mossoró, 25 de novembro de 1927”.

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    Chiquinha Rodrigues <br/> (1896-1966)

    Chiquinha Rodrigues Crédito: Reprodução

    Chiquinha Rodrigues
    (1896-1966)

    Francisca Pereira (Chiquinha) Rodrigues era uma mulher do interior, e foi no interior de São Paulo que se mobilizou pela educação, além de ter sido uma das primeiras prefeitas no Brasil.

    Professora, jornalista e política, Chiquinha fundou em 1933 a Bandeira Paulista de Alfabetização, entidade que criou escolas primárias e profissionalizantes no interior, além de clubes agrícolas. Em 1936 elegeu-se deputada estadual, ficando no mandato apenas um ano, devido ao fechamento das assembleias estaduais pela decretação do Estado Novo.

    Continuou militando pelo ensino rural e pelo desenvolvimento do interior, atuando no Instituto Nacional de Geografia e Estatística e no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Entre 1945 e 1946, foi prefeita de Tatuí (SP), realizando várias obras como jardins de infância e um grupo escolar. Escreveu vários livros didáticos.

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    Elise Berger (1907-1940)

    Elise Berger, passaporte americano em que utiliza o codinome Machla Lenczycki, 1935 Crédito: Arquivo Superior Tribunal Militar

    Elise Berger (1907-1940)

    Elisabeth (Elise) Saborovsky, conhecida como “Sabo”, foi uma militante comunista alemã que participou da tentativa de revolução comunista de 1935 no Brasil e era a melhor amiga de Olga Benário. Sua história foi ofuscada pela de Olga e pouco se falou sobre ela.

    Ela, seu marido Arthur Ernest Ewert — ex-deputado alemão que usava o codinome Harry Berger —, Olga e mais cinco outros militantes europeus receberam a missão de acompanhar a volta de Luís Carlos Prestes ao Brasil, onde esperavam, com o apoio da Aliança Nacional Libertadora (ANL), conflagrar uma revolução comunista. O movimento fracassou, e muitos militantes foram presos, inclusive Elise e Arthur, que foram barbaramente torturados pela polícia de Getúlio Vargas.

    Elise acabou deportada com Olga para a Alemanha nazista, onde foi novamente torturada, submetida a trabalhos forçados e morreu num campo de concentração. Assim como Olga, Elise foi uma mulher judia, comunista e estrangeira que deixou no Brasil um exemplo de luta.

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    Eneida de Morais (1904-1971)

    Eneida de Morais, entre Manuel Bandeira e Jorge Amado Crédito: Agência O Globo

    Eneida de Morais (1904-1971)

    Eneida de Morais foi uma escritora, militante política e jornalista que, por seus artigos políticos, foi presa 11 vezes durante os oito anos de Estado Novo.

    Considerada uma das maiores personalidades culturais e políticas do Pará, Eneida participou ativamente do movimento modernista em Belém. Depois, viveu no Rio e em São Paulo, onde, ao entrar em contato com as teorias de Marx, Engels, Bukarin e Lênin, entre outros, tornou-se comunista e ingressou no Partido Comunista do Brasil. Era 1932, ano em que foi presa pela primeira vez. Desde então, decidiu assinar seus textos apenas com o primeiro nome, para que, segundo ela, ninguém responsabilizasse "nem o pai nem o marido pelos delitos que cometesse". Em 1936 foi presa novamente no Rio e passou um ano e meio na Casa de Detenção, onde liderou greves contra maus-tratos e foi companheira de cela de Maria Werneck e Olga Benário.

    Eneida também levou sua luta política para o exterior. Morou em Paris, sendo informante de brasileiros pelo Partido Comunista, e proferiu quatro conferências sobre literatura na China, representando a União Brasileira dos Escritores (UBE).

    Depois de tantas prisões durante o Estado Novo, dedicou-se nos anos 1940 à literatura e ao jornalismo e viajou à Europa e à União Soviética, onde representou a UBE num congresso de literatos. Em 1971, fundou em Belém o Museu Paraense da Imagem e do Som.

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    Eugênia Moreira (1898-1948)

    Eugênia Moreira no posto de alistamento eleitoral do Partido Comunista na ABI, Rio de Janeiro, 1945 Crédito: Iconographia

    Eugênia Moreira (1898-1948)

    Uma das pioneiras do feminismo e uma das líderes da campanha sufragista no Brasil, Eugênia Moreira foi considerada a primeira repórter feminina do país, chamada de “reportista”, após se internar num asilo para investigar um assassinato e acabar fazendo uma grande reportagem sobre o cotidiano da clausura.

    Começou a trabalhar aos 16 anos na redação do jornal “A Rua”. Na época, imprensa era um ambiente totalmente masculino. Depois que se casou com o jornalista Álvaro Moreira, entrou para a roda de intelectuais e militantes de esquerda, atuou na campanha pelo voto feminino e, em 1935, participou da fundação da União Feminina do Brasil, que atuou na Frente Popular Antifascista. Acabou presa, sob a acusação de ser comunista. Em liberdade, dedicou-se à carreira de atriz e diretora de teatro, sempre preocupada com a popularização dessa arte.

    Participou ativamente da campanha para que a Alemanha deportasse para o Brasil Anita Leocádia Prestes, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário nascida numa prisão da Alemanha nazista em 1936. A campanha internacional acabou vitoriosa, com a entrega da criança à avó brasileira.

    Com a redemocratização do país em 1945, Eugênia candidatou-se a deputada federal constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro, mas nenhuma mulher foi eleita naquele ano.

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    Heloísa Alberto Torres (1895-1977)

    Heloisa Alberto Torres no velório de Rondon Crédito: Agência O Globo

    Heloísa Alberto Torres (1895-1977)

    Heloísa Alberto Torres foi antropóloga e diretora do Museu Nacional, tendo participado da criação da Fundação Nacional do Índio (Funai). Suas façanhas intelectuais e conquistas na antropologia foram saudadas pela imprensa como uma vitória do feminismo do país.

    Dedicou-se à pesquisa de sítios arqueológicos no Brasil, tornando-se especialista em cerâmica marajoara. Colaborou com o Conselho Nacional de Proteção aos Índios e, em 1959, após a morte do marechal Rondon, assumiu a presidência da entidade. Em 1967, com a criação da Funai, dirigiu seu Departamento de Estudos e Pesquisas.

    Heloísa nunca se casou e, aposentada, mudou-se nos anos 1970 para Itaboraí (RJ), terra natal de seu pai. Sua casa, hoje tombada pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), exibe acervo com seus estudos antropológicos, além de livros raros e a correspondência trocada com o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss.

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    Laudelina de Campos Melo (1904-1991)

    Laudelina de Campos Melo Crédito: Reprodução

    Laudelina de Campos Melo (1904-1991)

    Laudelina de Campos Melo foi precursora do movimento negro no país e liderança das empregadas domésticas desde os anos 1930.

    Neta de escravos de Minas Gerais, mudou-se para Santos (SP) e depois para Campinas (SP), onde militou pelos direitos das domésticas e pela consciência negra. Entre seus maiores embates, está a denúncia contra as patroas de Campinas que ostensivamente preteriam as trabalhadoras negras.

    Atuando no nascente movimento negro organizado, em 1957 promoveu um baile de debutantes para moças negras no Teatro Municipal de Campinas, cuja diretoria resistiu em alugar o espaço, levando Laudelina mais uma vez a denunciar o preconceito da elite campineira.

    Em 1961, a exemplo do que havia feito em Santos nos anos 1930, fundou uma associação de empregadas domésticas na cidade. O sucesso da empreitada estimulou a criação de organizações similares no Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades. Em 1988, a Associação foi transformada no Sindicato dos Trabalhadores Domésticos, do qual foi presidenta.

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    Discurso

    Lúcia Miguel Pereira <br/> (1903-1959)

    Lucia Miguel Pereira Crédito: Agência O Globo

    Lúcia Miguel Pereira
    (1903-1959)

    Lúcia Miguel Pereira foi escritora e se destacou na crítica literária.

    Mineira, estudou e viveu no Rio de Janeiro, onde também iniciou sua carreira de crítica, contribuindo para vários periódicos desde os anos 1930. Mas foi com o ensaio crítico-literário sobre Machado de Assis que seu trabalho ganhou repercussão nacional. Analisando a obra machadiana sob o ponto de vista estético, venceu o Prêmio Felipe de Oliveira, do Círculo Literário do Brasil.

    Além de romances, Lúcia escreveu biografias, compêndios sobre literatura brasileira e livros infantis, pelos quais também foi premiada. Numa época em que as mulheres começavam a se destacar na cena pública brasileira, Lúcia foi uma das intelectuais mais prestigiadas do país.

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    Discurso

    Maria Werneck (1909-1994)

    Maria Werneck Crédito: reprodução

    Maria Werneck (1909-1994)

    Advogada, Maria Werneck foi uma das grandes responsáveis pela organização das mulheres de esquerda no país.

    Iniciou sua militância após ingressar na Faculdade de Direito, em 1930, em organizações como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e a União Universitária Feminina. Ainda nessa década, filiou-se à Liga Antifascista, fez parte da Liga de Defesa da Cultura Popular e fundou a União Feminina do Brasil, ambas ligadas à Aliança Nacional Libertadora (ANL).

    Maria defendia uma luta mais ampla pelos direitos políticos, sociais e trabalhistas da mulher. Após a repressão à revolta comunista de 1935, ela foi presa e processada como uma das cabeças do movimento, testemunhando do cárcere a extradição de Olga Benário. Absolvida em 1937, exilou-se na Argentina, antes da instauração do Estado Novo.

    Com a anistia, em 1945, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil, onde permaneceu até 1952, mesmo depois que o partido caiu na clandestinidade.

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    Discurso

    Nieta Campos da Paz (1911-1990)

    Nieta Campos da Paz Crédito: reprodução

    Nieta Campos da Paz (1911-1990)

    Vista pela ditadura militar como a “velhinha comunista”, Antonieta (Nieta) Hampshire Campos de Paz teve um grande papel na defesa das mulheres, das liberdades democráticas e pela construção de uma sociedade mais justa.

    Sua orientação política teve forte influência do sogro, dirigente da Aliança Nacional Libertadora (ANL), preso após o frustrado levante comunista de 1935. Foi militante do Partido Comunista do Brasil e, sob o comando direto de Carlos Marighela, dirigiu as atividades da ANL no Rio de Janeiro. Envolveu-se nas campanhas pelo petróleo, pela paz, contra a carestia e pela anistia, entre outras, o que lhe rendeu três prisões nas décadas de 1940 e 1950.

    Nieta abrigava militantes em sua casa e cedia o espaço para cursos. Era especialista em fazer reconhecimento dos lugares nos quais os guerrilheiros iriam agir. Teve, por isso, sua casa invadida em 1970, e em 1972 foi presa e torturada, aos 60 anos, por militares do Exército.

    Absolvida, continuou atuante, lutando pelas eleições diretas em 1984, pela Constituinte, contra a política nuclear, a favor dos índios e negros. Filou-se ao Movimento Feminino pela Anistia e colaborou com ações sobre a mesma causa no Uruguai, contra a ditadura do Chile, a favor de Cuba, Nicarágua e El Salvador, contra o apartheid na África do Sul e pela libertação de Nelson Mandela.

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    Nise da Silveira (1905-1999)

    Nise da Silveira Crédito: reprodução

    Nise da Silveira (1905-1999)

    Nise da Silveira, a psiquiatra e pioneira da terapia ocupacional no Brasil, nasceu em Maceió e, com 16 anos, se tornou a única mulher a cursar Medicina na Bahia.

    Dedicou sua vida a humanizar o tratamento de pacientes psiquiátricos e se recusou a aplicar neles métodos tradicionais, como o choque elétrico e a lobotomia. Engajou-se nos meios artísticos e literários e em 1933 foi aprovada em concurso público para ingressar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, setor da antiga Divisão de Saúde Mental do Rio de Janeiro.

    Ficou 15 meses presa por militar na Aliança Nacional Libertadora. Na década de 1940, criou a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR) do Centro Psiquiátrico Pedro 2º e instituiu ateliês de desenho e pintura como parte do tratamento de esquizofrênicos, revolucionando a maneira como a sociedade e a medicina deveriam se relacionar com os psicóticos.

    Nise obteve notoriedade internacional quando o pai da psicologia analítica, o suíço Carl Gustav Jung, reconheceu a importância de seu trabalho. A produção dos pacientes converteu-se num material impressionante de imagens da psicose e compuseram diversas exposições de arte, além de integrar o Museu de Imagens do Inconsciente, fundado por Nise em 1952 e que hoje contém mais de 300 mil obras. Criou o Grupo de Estudos C. G. Jung, oficializado em 1968, e a Casa das Palmeiras, em 1956, reconhecida como de utilidade pública em 1963.

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    Discurso

    Olga Benário (1908-1942)

    Olga Benário a caminho de depoimento em maio 1936 Crédito: Iconographia

    Olga Benário (1908-1942)

    Conhecida no Brasil como Olga Benário Prestes, a militante alemã ficou famosa por sua defesa revolucionária do comunismo e por sua luta para acabar com as desigualdades e injustiças sociais, o que levou o governo brasileiro a entregá-la aos nazistas.

    Judia, aos 15 anos ingressou em uma organização clandestina comunista vinculada ao Partido Comunista Alemão. Passou por Moscou, França e Inglaterra e frequentou cursos paramilitares; seu ativismo político resultou em diversas prisões. Em 1934, de volta a Moscou, tomou conhecimento da Coluna Prestes e foi escolhida pelo partido para conduzir em segurança o líder Luís Carlos Prestes de volta ao Brasil.

    Clandestinos, Olga e Prestes articularam e dirigiram no país a Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento popular antifascista e anti-imperialista que deu origem à Intentona Comunista. O governo brasileiro reprimiu a insurreição e, em 1936, Olga, grávida, foi capturada pela polícia e deportada para a Alemanha. Entregue à Gestapo, deu à luz Anita Leocádia Prestes numa prisão feminina e, de lá, foi levada para campos de concentração.

    A mãe de Prestes, dona Leocádia, organizou uma grande campanha internacional para trazer o bebê para o Brasil, o que só aconteceu em 1942, mesmo ano em que Olga foi assassinada numa câmara de gás.

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    Discurso

    Pagu (1910-1962)

    Pagu presa em São Paulo em fevereiro de 1936 Crédito: Iconographia

    Pagu (1910-1962)

    Uma das primeiras mulheres a serem presas por motivos políticos no século 20, a jornalista, poetisa e ativista feminista Patrícia Rehder Galvão, ou Pagu, entregou sua vida aos ideais de igualdade e justiça social.

    Aos 18 anos, ingressou ativamente no movimento modernista e, posteriormente, no movimento antropofágico. Corajosa, teve sua história permeada de ações que afrontaram a sociedade da época.

    Foi filiada ao Partido Comunista do Brasil (PCB) até 1940 e, em 1931, enfrentou a cavalaria da polícia para defender um estivador negro. No mesmo ano, lançou o jornal “O Homem do Povo”, que acabou proibido pela polícia; também colaborou com os periódicos “Vanguarda Socialista” e “A Tribuna”. Foi presa pela primeira vez ao participar de um protesto contra a execução, nos Estados Unidos, de anarquistas italianos.

    Em seu romance “Parque Industrial”, Pagu denuncia as condições socioeconômicas dos trabalhadores e defende ideais feministas, desmitificando a figura feminina para além do espaço doméstico. Viajou ao redor do mundo entrevistando personalidades ilustres — como Freud — e militou no Partido Comunista francês.

    Em 1935, retornou ao Brasil, onde ficou presa por quase cinco anos. Irrequieta e criativa, atuou na área cultural traduzindo romances, dirigindo peças teatrais e presidindo a União do Teatro Amador de Santos. Tentou se eleger, sem sucesso, deputada estadual pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 1950. Teve como companheiro o escritor Oswald de Andrade, que lhe deu um filho, Rudá.